#80 sonhos
atingindo o inconsciente da vida
Já não era uma noite tão fria de agosto, mas longe de fazer calor. Saí para uma abertura de exposição com minha amiga e quando dei por mim estavam lendo a palma da minha mão. É isso mesmo. Lendo a mão. No meio do rolê, com cigarro na boca e cerveja no chão. Foram muitas coisas ditas, trocadas, uma abertura enorme. Mas fiquei especialmente marcada por algo dito já no final. Sobre meus sonhos.
“Você precisa dormir melhor para sonhar mais”. Eu não costumo lembrar muito meus sonhos. Eu acordo muito durante a noite, fui insone por muitos anos - hoje tomo melatonina e faço tratamento rs - e quando acordo para trabalhar 5h30 da manhã já entro direto da rotina. Não há espaço ou tempo para digerir o que foi sonhado. Mas fato é que eu sonho muito. É como se minhas noites fossem grandes maratonas visuais. Muitas vezes com pessoas conhecidas, histórias complexas, falas, mas também acontecem de serem coisas abstratas, sem histórias, apenas visuais, sem muita explicação ou formato. Ainda não consegui entender um padrão, mas desde que ele me disse isso voltei a prestar atenção nos meus sonhos.
Não consigo escrever meus sonhos quando acordo - que é o ideal para manter tudo fresco - mas rascunho uma coisa ou outra no whatsapp mesmo e tento elaborar depois mais tarde, escrevendo a mão. O que ele me disse é que através dos sonhos eu tenho essa sensibilidade, essa conexão com o outro lado, uma espiritualidade, algo diferente que não é dessa ordem racional, palpável. Jung pode ter chamado isso de inconsciente, mas eu acho que é algo ainda mais profundo.
Passei essas últimas duas semanas mergulhando de novo nos meus sonhos, me permitindo sonhar de novo. Entendendo que quando eu escrevi em 2022 para o “adeus” a frase “as noites foram feitas para sonhar” eu já estava dando um recado para mim mesma. Olhando para quem usa os sonhos como inspiração enquanto eu tento usar os sonhos como inspiração. Como atingir esse onírico, sair do racional para compor algo.
Assistindo o documentário do Jeff Buckley “It’s Never Over” duas falas dele ficaram coladas em mim: que suas maiores influências musicais eram "love, anger, depression, joy, dreams... and Zeppelin" e que muito do que ele escrevia para suas músicas vinham de sonhos que teve. Ele fala isso em Dream of You And I (“This is, uh. Based on some music that I heard in a dream. That I saw in a dream.” antes de tocar a música, de verdade, arrepios) e honestamente lágrimas durante a crescente em “burning in the corner is the only one who dreams he had you with him, my body turns and yearns for a sleep that won't ever come, it's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder”. Sim eu só queria citar essa música mesmo e o sonho dela.
Não consigo deixar de achar linda a imagem de ouvir uma música em um sonho e compor ela. O sonho como fonte de criatividade, já sabemos disso, mas ouvir a música inteira, ela nascer assim e virar acordes e letras. Tem que ter uma sensibilidade enorme para se abrir nos sonhos, ouvir o que toca durante eles e transpor isso para a vida palpável. Me emociona saber que Jeff trazia o que repousava durante suas noites de descanso para suas composições porque é nesses momentos de maior vulnerabilidade que nosso inconsciente se abre para o que estamos sentindo de verdade.
Sobre o David Lynch eu não poderia falar dele sem pedir contribuição da maior fã dele que eu conheço - literalmente, ela foi uma vez até Los Angeles cobrir um evento com ele só pra ver o homem ao vivo. Isabella Faria é jornalista, comunicadora, crítica de cinema e criadora de conteúdo. É também minha colega de faculdade, parceira de vida e amiga pessoal. E a pessoa que depois de tantos anos me convenceu a assistir Twin Peaks - e por isso serei sempre grata.

“David Lynch destrói o sonho americano com uma narrativa digna dos nossos mais profundos pesadelos. Medos, preconceitos e sentimentos dos quais mais nos envergonhamos são escancarados na tela através de narrativas que, na maioria das vezes, não compreendemos totalmente.
Mas os sonhos não são assim, mesmo?
Por vezes, acordamos com um gosto ruim na boca, ou um revertério que a gente não sabe da onde veio.
Assim são os filmes do Lynch.
São verdadeiras experiências cinematográficas, cheias de simbolismo e críticas ao moralismo da sociedade americana, mas sempre sutis.
É necessário prestar atenção – nos filmes do Lynch e em nós mesmos.”



Quando ela fala das sensações que sentimos quando acordamos, é exatamente assim que eu sinto a tradução dos sonhos nos filmes dele. Achei uma interpretação muito bonita na pesquisa que fiz falando que como Lynch começou como pintor o momento que ele vai para o cinema foi uma maneira de levar cores, sons, texturas, cheiros a uma imagem. Algo muito semelhante aos sentidos de um sonho. Kyle Maclachlan, parceiro de Lynch em diversas produções, escreveu a homenagem do diretor no New York Times e disse que Lynch era mais do que um cineasta, era um artista que buscava meios sem linguagem, vivendo num mundo de sentimento e inconsciente - as profundezas mais fundas de um oceano unificado e criativo.
Eu gosto muito da incorporação dos sonhos em suas obras - especialmente em Twin Peaks. As possibilidade de se entregar ao inconsciente e como isso pode te trazer respostas. Em Fire Walk With Me, o filme desse universo, David Bowie (!!!) diz a grande frase “vivemos dentro de um sonho”. Na terceira temporada, durante um sonho de Gordon Cole (interpretado pelo próprio Lynch), Monica Belluci diz: "Somos como o sonhador que sonha e depois vive dentro do sonho".



Tem quem diga que não entende nada de Twin Peaks, dos sonhos do Lynch ou dos filmes dele. Bem, eu acho que não tem muito o que entender aqui. As coisas não precisam ter uma lógica racional estabelecida. Elas podem ser mais subjetivas e apenas causar sensações. Assistimos seus filmes sem saber o que é real e o que não é em suas histórias. É uma linha muito tênue. Não precisamos corta-la ou ter uma resposta. Não é isso o que ele quer. Podemos sonhar coisas idealizando elas - como Dale Cooper tentando resolver as coisas do passado ou criando fantasias e ilusões para enganar a verdade - o que pode ser prejudicial e nos isolar da realidade nua e crua. Ou podemos ter pesadelos. Que trazem uma maldade que nos mostra a verdade do mundo, a fragilidade, o medo. Talvez por isso seus filmes pareçam tanto um sonho lúcido. Nos mostram a verdade do mundo, a fragilidade das relações humanas, o medo.
Durante os anos 70 ele começou a praticar Meditação Transcendental (para a produção de Eraserhead). Essa prática acompanhou ele por toda a sua vida e foi uma das coisas que ele mais defendeu. Ele falava que gostava de ir mais fundo, chegando a um estado expandido de consciência. Acho que de certa forma essa era uma forma dele de sonhar sem precisar dormir, de atingir essa abstração, seu inconsciente.
A primeira vez que vi Miró foi em 2017 sem querer na Argentina. Caí no Museo Nacional de Bellas Artes em uma exposição dele sem saber muito bem o que estava acontecendo - como sempre só pensava na minha avó que tanto me falou do Miró quando eu era pequena. Vi as figuras e fiquei desnorteada. Confesso que lembro disso, figuras e cores e meu espanto ao ver Miró pela primeira vez sem querer em outro país.



A segunda vez foi ano passado, na exposição Calder+Miró no Tomie Ohtake. Dessa vez eu estava especialmente ansiosa. Já tinha pesquisado bem sobre os dois, visto fotos das exposições, esperava dias para ver de perto. Eu sabia que ia ver algumas coisas de novo, apesar de nem lembrar direito o que tinha visto 7 anos antes - até porque eu tinha acabado de ver obras de Picasso, Paul Klee, Modigliani, Van Gogh, Chagall, Pollock, Rembrandt, Kandinsky, Rodin, Monet, Goya e prestes a visitar Eva Perón. De novo fui sozinha, mas tanta coisa já tinha mudado. Eu sabia mais ou menos o que me esperava. Eu estava especialmente animada para ver os móbiles do Calder e algumas coisas do Miró. E aí - a vida tem dessas né - eu fui arremessada. Arrebatada mesmo, sabe? Ver os sonhos de Miró pintados em suas diferentes possibilidades foi uma das coisas mais incríveis.



Ele pintou a série sobre sonhos em meados dos anos 1920 (mais ou menos entre 1924 e 1927) e são imagens extremamente abstratas, opacas, fundos monocromáticos, pinceladas. Nada descontrolado, tudo inconscientemente pensado em seus sonhos. Algumas dessas pinturas ficaram conhecidas como “pintura-poesia” já que incluiam textos, simbolos, sonhos. Ele foi voltar a imagens mais representativas só em 1928 ao fim dessa fase. Esse período marca uma produção que foge completamente da narrativa lógica e pictórica. Pode parecer jogada ou improvisada, mas não é. Tudo é calculado, especialmente colocado. Nada é à toa.

O processo era atingir uma falta completa de controle. Não ter razão nenhuma sob a performance e a construção artística. Ser levado pelo inconsciente e pela intuição, refletir o que está dentro e não no racional. Esse processo, também chamado de “sonhar acordado”, era como ele definia seu processo artístico. Curiosamente as primeiras composições oníricas dele resultaram de alucinações provenientes de fome. Esse processo virou quase uma linguagem própria que inspirou muitos surrealistas e uma outra forma de transcrever os sonhos, o lúdico, o onírico para o real. As pinturas de sonhos me causaram um mergulho profundo e bonito. Desses de arrancar um suspiro longo. Tem uma frase dele que diz “eu nunca sonho quando eu estou dormindo, mas eu sempre sonho quando estou acordado” e acho que traduz perfeitamente essa relação entre sonhos e suas pinturas.

Ver artistas que conseguem de formas tão diferentes usarem os sonhos em suas obras e criações é algo que tem me inspirado muito. Enquanto escrevo uma coisa ou outra (como o poema que vai encerrar essa newsletter e saiu de uma noite sonhada) fico pensando formas de me conectar com o que acontece durante minhas noites, de me abrir para o inconsciente e como posso atravessar para o outro lado. Até lá, convido vocês a fazerem a mesma coisa.
o sangue no travesseiro
denuncia
a boca rasgada
transgressão de um
sonho mal sonhado
ou de uma realidade
mal compreendida






