#87 likes líquidos
desejo curtidas e coisas liquidas demais
13 de janeiro e o papo já era de desabafo no chat das lésbicas. Curiosamente todas no mesmo clube do livro, em que lemos Eros da Anne Carson. No dia do encontro a conversa verteu para essa mesma discussão: likes, curtidas em stories, demonstrar desejo e afeto em tempos de redes sociais. Na hora falei com as meninas “são likes líquidos”, pensando na teoria do sociólogo Zygmunt Bauman de “amor liquido”.
Resumindo, a discussão e teoria de Bauman que ele fala nesse livro de 2003 (que li coisa de 13 anos atrás kkk ai ai) gira em torno de quão frágeis e efêmeras são as relações humanas na pós modernidade. A comparação principal é com produtos de consumo, itens descartáveis. As relações se tornam superficiais, se desmancham facilmente, os laços afetivos, de qualquer forma ou dimensão, se tornam cada vez mais voláteis. Ou seja, as relações surgem para terminarem, serem substituidas, nada se aprofunda. É bem uma lógica de mercado mesmo, pensando em satisfação rápida, imediata, troca constante, muita tecnologia (alô apps de relacionamento) e preguiça, cansaço e pouco investimento em aprofundamento. Resultado? Medo de relacionamentos e compromisso, buscando sempre algo que imagina ser melhor.
As relações não se sustentam sozinhas, não encaram as dificuldades, qualquer desafio de torna motivo de rompimento. Todo mundo vira produto (como o cardápio, vitrine dos apps), e como um celular velho com bateria arriada é trocado sem pensar duas vezes. O que acaba causando também uma ansiedade generalizada de ser trocado a qualquer momento. Um paradoxo mesmo. O foco é sempre o prazer imediato, aquela sensação de comer um doce que preenche o corpo e a barriga com o açúcar e 5min depois passa. Em suma: ser satisfeito rapidamente. Sem focar no longo prazo, no futuro. O importante é o agora. Ou seja, como você vai criar uma relação sólida dessa forma? Assim surge o medo do duradouro, do fixo, dos vínculos. O casual e sem responsabilidade entram em jogo muito mais vezes. Eu poderia discorrer sobre relacionamentos abertos, mas a questão é que a não monogamia e todas as suas vertentes também esbarram em questões de patriarcado e capitalismo. Mas acho simbólico cada vez mais relacionamentos abertos e não monogâmicos, relacionamentos mais casuais, sem rótulos, estarem em voga.
Em tempos de redes sociais e aplicativos de relacionamento quase todas as relações se tornam líquidas. Ok, estamos conectados mais facilmente, conseguimos manter contato melhor, descobrir mais coisas sobre a outra pessoa. Mas também se torna tudo superficial. É uma lógica meio de, já que temos tudo facilmente, não há necessidade de se esforçar. Se eu já sei tudo porque stalkeei a pessoa, pra que conversar e descobrir mais coisas?
Tudo evapora rápido, até o que sabemos sobre as pessoas. Daqui duas pessoas novas você não vai mais se lembrar dos detalhes e coisinhas sobre as pessoas passadas. Claro, se elas se encaixarem nesse padrão líquido, passável. Se a gente quiser parar pra pensar tudo se encaixa nessa liquidez, amor, likes, beijos, amores. Se tudo é liquido, volátil, como transformar algo em sólido?
Acabamos em uma eterna performance líquida, de curtida em curtida para buscar o próximo interesse - e interessado! - sem cair em águas profundas, pézinho no raso sempre, pronto para sair do mar e procurar outra onda para mergulhar (que logo logo passa e você sai e procura outra e outra afinal a qualquer dificuldade, qualquer diferença, já é hora de mudar e garantir que sempre não há nenhuma decepção e o prazer momentâneo está sempre presente).
Vamos lá o roteiro é conhecido: surge o interesse (ou o match), seguem nas redes sociais sem muito papo, likes em fotos, coloca nos melhores amigos do Instagram, dá um like aqui um like acolá, responde um story ou outro, mas fica aí. Uma eterna chuva de likes para demonstrar um interesse (ou pelo menos pra manter a pessoa avisada de “ei to por aqui”). E quero deixar bem claro a diferença de interesse e desejo.
Eu acabei de ler Eros da Anne Carson e reler Paixão Simples da Annie Ernaux para o clube do livro Great Books Great Tits. Acho que a fonte do desejo pode passar pelo interesse, mas o interesse não significa desejo necessariamente. O desejo, o Eros que seria esse amor erótico doce-amargo, fala de falta, prazer, dor, a espera que Ernaux retrata bem, o espaço entre amado e quem ama, o paradoxo que engloba tudo isso. O interesse é… Interesse. Vontade. Aquela coisa rápida sem muita prolongação. Do tipo tenho interesse em você, em fulano, em ciclano, passou um, vai pro outro. A chance do interesse virar algo mais profundo, uma relação é dificil já que a qualquer sinal de dificuldade quem se interessa abandona o interesse e pula para o outro.
Enquanto o desejo implica necessariamente na falta, no espaço, o interesse não presta atenção nessa ausência. O desejo nos move, nos faz buscar, diminuir esse espaço. Acho que é sempre bom ressaltar que o desejo pode dizer respeito a coisas além do Eros e do amor. Mas vamos manter o tema por aqui. Annie Ernaux mostra bem o descolamento do eu quando o desejo toma conta. Em Paixão Simples ela retrata os meses da sua vida que giraram em torno de um amante. A espera, o desespero, o medo de perder uma ligação, abrir mão de si, transformar uma viagem sozinha em algum significado com ele. O desejo gira em torno disso, do que há entre o outro e você, esse buraco. O interesse é mais egoísta. De realizar isso para você, preencher esse interesse, uma conquista. Enquanto o desejo fala do outro, o interesse fala de você.
Acho bonita a conexão entre Anne Carson e Annie Ernaux no que diz respeito à escrita e o desejo. Ela pode reduzir a distância entre quem ama e o amado ou despertar mais desejo. Para Ernaux foi uma maneira de eternizar o amante e de olhar para esse período. Olhar para a loucura desencadeada pelo Eros, por tudo que nasceu desse período. O interesse não nos deixa loucos. É quase um jogo mental mesmo, deixa a pessoa racional, atenta a tudo. Se o like é correspondido estamos atentos para interagir, para manter o interesse ativo, rodando.
Por fim acaba que tudo vira um grande show, uma grande performance. Aquela coisa de postar um story para uma pessoa específica ver, escolher e pensar o que será postado, apagar as mensagens diversas vezes antes de mandar, dar um like, postar uma seminude querendo preencher o ego, postar aquela música porque você descobriu que fulana ou ciclano gosta dela. Tudo é uma grande performance em busca do maior número de curtidas e interesses atrás de você. O desejo fica perdido, esquecido. Ou como algo muito mais interno e subterrâneo. Sem ter chances de se manifestar verdadeiramente, sem rasgar a superficialidade.
(dia desses esse video pipocou pra mim no tiktok e acho que vale assistir)
Esse texto não tem conclusão. É uma conversa aberta, algo que tem aparecido em muitos muitos papos com minhas amigas e que quero expandir, falar com mais pessoas, gente de fora da minha bolha, da minha realidade.
Obsessões Alheias
Hoje as obsessões são da Clara, minha irmã mais nova. Clara é uma pessoa peculiar (e digo isso como o maior elogio possível), por isso suas obsessões são curiosas e sempre me interessam.
clara gregori cagnoni tem 26 anos e nasceu artista. claro que isso levou para a formação em artes do corpo, ao trabalho com teatro, dança, artes visuais. mas isso é trabalho, ela sempre foi apaixonada por todo e qualquer tipo de arte - foi ela que me levou ao longo assunto das performances e me fez apaixonar por isso. é a pessoa com mais informações aleatórias e curiosas sobre tubarões e animais do mar ou de qualquer área na real. apaixonada por tudo que gosta, por maquiagem artística (obrigada clara por ser maquiadora de verdade com diploma e tudo e por ser minha maquiadora oficial) e pelo pingu.









seguem as obsessões atuais da clara:
a trilha sonora de Hamnet
(que ela me traiu e foi assistir não comigo como ela tinha prometido, com nossa mãe kkk): “é muito bonita, muito tranquila de escutar, me pegou no mesmo lugar que a trilha sonora de Poor Things, ela faz um papel diferente do papel em Poor Things, mas são parecidas de composição. e para trabalhar é uma delícia, achei ela maravilhosa para trabalhar. o spotify tá horrivel de algoritmo, sabe quando você cansa das mesmas coisas e encontra uma música nova e fica “ah vida nova!”. eu acho que é por isso. e a história é muito bonita, me comoveu demais”.mukbang de frutos do mar (juro por deus, são aqueles vídeos de pessoas consumindo grandes pratos com lagosta, camarões gigantes, etc com milhos e sabores intensos, picantes): “não só mukbang quando eles estão comendo, mas também quando eles estão fazendo, eu adoro ficar vendo eles abrindo caranguejo, como limpa lagosta, é um mundo novo pra mim, eu nunca comi né. é interessante ver, tem uma parte da biologia que eu fico olhando como é a anatomia do bichinho, bicho bizarro sabe? e é legal de ver, são várias culturas sabe. já vi da coreia, de paises da áfrica, latinos, do brasil, é interessante ver como uma comida está no mundo inteiro como muda em questão de cultura. e é meio asmr, é só crec crec crec. eu gosto de assistir antes de dormir. entra no mesmo lugar de quando eu era obcecada por ficar vendo vídeo de barista coreano. que fazem de tudo, bebida fria, tem um que é de duas horas sem música, só asmr. uma delícia. está no mesmo lugar. infelizmente acho que estou me afastando de obsessões que fico muito animada. até de hobby.”
desfile da margiela artisanal em 2024 (sim o fatídico Maison Margiela Couture Spring 2024 do Galliano com maquiagem da Pat McGrath): “pela maquiagem, pelas roupas, consegui aplicar no dia a dia essa obsessão, esse ano nem fiquei tão obcecada por coisas da moda, e é do ano retrasado né, nossa”.
e maquiagem dela inspirada no desfile na época que ela trabalhava em um lugar que não podia usar maquiagem artística kkkk:



beijinhos e até a próxima!










